Vago no vagar no meu andar lento pelo Vale do Anhangabaú.
Pulo dentro de uma foto antiga da revista que vi na banca de jornais, e persigo, na cadência dos meus passos de dança ao som de “Apache 61”, executada por Jorgen Ingmann, a moça do chapéu com flores, que está indo em direção da Praça das Bandeiras.
Eu e ela estávamos no mesmo local, só que em tempos diferentes: eu, nos anos 60 e ela, mais ou menos, no fim dos anos 30, início dos 40.
Determinado como fera faminta, me ponho a perseguir minha futura presa.
Ando depressa, mas mesmo assim não consigo alcançá-la.
O estranho é que ela anda tão devagar, que parece uma freirinha em compasso musical sacro-litúrgico.
Chego perto e digo: “Boa tarde, madrinha! E dou um grito de surpresa.
Ela nada mais era do que a própria Marcianita, cantada na música do Sérgio Murilo, ídolo da música jovem daqueles tempos, antes de o Roberto Carlos tomar o seu lugar.
E ela, sedutora, passa a mão no meu queixo ainda meio imberbe, e me rouba um beijo arrojado.
Fico em estado de graça, cantando, só para mim, This is My Song, da Petula Clark.
Mas, agora, com um estalo de seus dedos, ela se transforma numa mulher-aranha e escala o Edifício das Bandeiras, ali pertinho.
E eu, fico, em baixo, a olhar para cima, perplexo.
Agora, ela está sentada na letra g de gasolina, do letreiro em gás néon, da propaganda da “GASOLINA GULF’ que havia no topo daquele prédio.
Eu devo ter nascido depois daquela propaganda, mas, surrealmente, ela estava lá nesses meus, só meus, anos 60.
Feito um jovem que quer tudo para si, rapidamente entro no prédio, e pelo elevador, mais as outras escadas internas, chego até ela, lá em cima.
E o panorama não podia ser o mais maravilhoso que vi em minha vida até então:
Sob a fosforescência do néon, a Marcianita dançava, com seu traje espacial, cinza brilhante, o Creque Alley dos Mammas and The Papas.
E o Vale do Anhangabaú, às 19:H00 daquele dia, era todo uma visão futurística de um tempo que ainda não tinha chegado.
Era mais ou menos como aqueles rastros luminosos dos carros que passam à noite e viram fotografia de cartões postais, em cores mágicas.
De fato, um festival de luzes e cor, inesquecível. Meio Parque Shan-gai dos meus sonhos, e que, na realidade, ficava um pouco longe dali, no Parque dom Pedro II.
Havia um vapor de fumaça que saía do fundo da terra, provavelmente da emanação ebuliente dos rios Humaitá e Itororó, hoje canalizados, e por sobre os quais passam a avenida Nove de Julho e a 23 de Maio.
Dei um grito de felicidade, vindo do fundo do meu peito, jovem e varonil, com aquele orgulho sinceramente “bairrista”, que até hoje trago no olhar, no meu ser, no fundo do meu coração.
Bem ali, no topo do edifício, onde era a confluência daqueles antigos rios, que depois desembocavam no Riacho do Anhangabaú, e ainda muito antes da estação do metrô modificar a paisagem futurista de então, mas já sem o Teatro de Alumínio, eu agora dançava com a Marcianita.
Sob o efeito da Gasolina Gulf em néon e da paisagem marciana que se descortinava, eu era todo São Paulo, eu mesmo, sim, era a minha São Paulo, nela mesma, na minha cidade acalentada nos meus desejos de adolescente e cantada e decantada agora no meu porvir de ancião dos meus amores mais sinceros, mais leais, mais amor dos amores.
E ao som dos sons jovens norte americanos e ingênuos, que fizeram parte de mim e da minha cidade daqueles tempos, dei o maior grito de felicidade que São Paulo registrou em toda a sua história por um dos seus filhos mais genuínos: eu mesmo. E continuei dançando com a Marcianita, mas agora eu e ela mais acima ainda, nas estrelas da Constelação do meu Cruzeiro do Sul, na linha do meu Trópico de Capricórnio que dividiu a minha vida em feliz e não tão feliz, mas sempre mais para feliz demais, ouvindo, em meio de tamanho barulho, a suavidade da minha alma a desaguar com os dois rios no Anhangabaú, para sempre, eternamente. Te amo, São Paulo!
quarta-feira, 12 de maio de 2010
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Te amo, mãe!!!
Preenchi teu espaço por longos nove meses e depois convivi com você por uma "eternidade" de quase 50 anos corridos. Te senti em minhas entranhas, no meu amor, primeiro e sincero, na minha vida inteira.
Desconectadamente de uma lógica que ainda reluto aceitar, a vida te levou para uma dimensão de outro lado, onde jamais pude te alcançar.
E, estranhamente, nem um ano depois "te esqueci", e fiquei admirado de como conseguira "te superar" tão depressa.
No entanto, um dia, abri a porta do meu apartamentinho e te senti lá dentro. Vc estava lá, entrara lá e ficou lá.
E passei a te respirar em todos os cantos, a te sentir no café da manhã e no lanche da tarde dos meus dias livres. Nas sopas inigualadas às tuas, do jantar, na suavidade do travesseiro da noite.
Hoje, então, você se apoderou totalmente de mim. Te vejo nos meus pequenos gestos, te ouço na minha voz. E é você mesma que está nas minhas caretas e na minha risada, e no portão de mim mesmo, quando saio e chamo, igualzinho a vc, meus netinhos para virem almoçar. Eu te amo, mãe!!!
Desconectadamente de uma lógica que ainda reluto aceitar, a vida te levou para uma dimensão de outro lado, onde jamais pude te alcançar.
E, estranhamente, nem um ano depois "te esqueci", e fiquei admirado de como conseguira "te superar" tão depressa.
No entanto, um dia, abri a porta do meu apartamentinho e te senti lá dentro. Vc estava lá, entrara lá e ficou lá.
E passei a te respirar em todos os cantos, a te sentir no café da manhã e no lanche da tarde dos meus dias livres. Nas sopas inigualadas às tuas, do jantar, na suavidade do travesseiro da noite.
Hoje, então, você se apoderou totalmente de mim. Te vejo nos meus pequenos gestos, te ouço na minha voz. E é você mesma que está nas minhas caretas e na minha risada, e no portão de mim mesmo, quando saio e chamo, igualzinho a vc, meus netinhos para virem almoçar. Eu te amo, mãe!!!
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